Bitcoin, cadeia de blocos e implicações sociais: uma restruturação global?

 

Bitcoin, cadeia de blocos e implicações sociais: uma restruturação global?

Quando uma tecnologia é suficientemente inovadora é muito provável que acabe por se impôr. A históra está cheia de exemplos que acompanham esta ideia. Tal como na guerra das correntes eléctricas, em que apesar de inicialmente ter sido adoptada como padrão a corrente contínua (1) para a distribuição de electricidade nos USA, a corrente alternada (2) acabou por se impôr. O mesmo tem acontecido com outras tecnologias, em que a sociedade em geral dá como um dado adquirido a sua viabilidade máxima e incontornável até que outra surge e as torna obsoletas. À medida que a tecnologia avança, estes casos são cada vez mais comuns. A título de exemplo, mencionamos a fotografia digital que potenciou a falência da kodak, algo totalmente impensável há poucos anos atrás; ou a internet e o 'vídeo on demand' fornecido pelos operadores de televisão por cabo que esteve na origem do desaparecimento, em poucos anos, dos vídeo-clube. São inúmeros os casos desta natureza que poderíamos aqui elencar.


Blockchain ou cadeia de blocos

Para podermos aferir sobre o brilhantismo da criação de Satoshi Nakamoto, faremos uma descrição simples do funcionamento da cadeia de blocos.

A cadeia de blocos não é mais do que uma base de dados como tantas outras, contudo, está embutida de características que a tornam única. Podemos imaginar esta base de dados como um conjunto de folhas de cálculo onde são inseridos registos. Estas folhas de cálculo são assinadas digitalmente e distribuidas por todos os participantes da rede, que, validando a assinatura, adicionam-na (bloco) à cadeia pré-existente. Desta forma, é uma base de dados que cresce permanentemente, pelo facto de que para se poder adicionar um bloco, a assinatura tem de ser validada pela maioria dos participantes na rede. Assim, é garantida a veracidade dos dados e uma vez assinado, o bloco não pode mais ser alterado.

Este mecanismo torna a cadeia de blocos num sistema de consenso autónomo e, de facto, elimina da equação a necessidade de uma entidade para garantir a autenticidade das transaçoes. Os bancos centrais, por exemplo, são quem garante as transaçoes bancárias, mas com o recurso à tecnologia blockchain que assegura a autenticidade necessária, deixam de ser imperativos como o são actualmente.

 

Primeira utilização da tecnologia  

A moeda Bitcoin representa a primeira utilização prática desta tecnologia, com a qual muitas vezes é tambem confundida, contudo, as transações monetárias são apenas a primeira utilização da cadeia de blocos.


Outras possíveis utilizações  

Ao observar-mos as características da cadeia de blocos, é fácil perceber que pode ser aplicada a todos os casos onde exista a necessidade de obter profundidade histórica, i.e., ser possível manter os registos de forma permanente e imutável e, ao mesmo tempo, garantir a sua imutabilidade e confiança.

Assim, estamos em crer que todos os registos de propriedade poderão ser um dia reunidos numa base de dados deste tipo, como o registo automóvel, o registo predial, as patentes, o registo civil, o registo de acções e obrigações, entre muitas outras aplicações.


A rede que nunca dorme

Tal como a Bitcoin, as redes baseadas na cadeia de blocos estão sempre disponíveis. Assim, em qualquer parte do mundo e a qualquer hora, dois indivíduos que não se conhecem podem efectuar uma transação segura e garantida entre si, sem necessitar de uma terceira entidade que garanta que a mesma foi feita e é irreversivel. Seguindo esta ordem de ideias, para efectuar a venda de um automóvel registado na cadeia de blocos, basta que o vendedor transfira o registo para o futuro proprietário no momento e no local, e a partir desse instante todos os participantes da rede ficam a saber que aquela viatura mudou de proprietário, com total segurança, de forma prática e com custo negligenciável. As implicações são imensas, os negócios podem ocorrer a qualquer hora, não existem mais feriados, nem fins de semana, e como a rede é distribuída não existem mais falhas na rede, pois mesmo que determinado nó esteja indisponível, a transação irá processar-se por qualquer outro que se encontre em funcionamento.

De facto, a qualquer hora e em qualquer dia podemos vender uma casa e obter o registo nesse instante, registar o nascimento de um filho logo após o parto, ou ainda trocar participações de uma empresa a qualquer hora do dia.

 

Implicações económicas e sociais

A adopção de tecnologias deste género torna obsoletas todas as entidades públicas e privadas cuja função é garantir a salvaguarda e a autenticidade de registos e transações. Assim, entidades bancárias, notários ou consevatórias terão de se reinventar e procurar novas funções ou serão extintas. Evidentemente que é também de esperar um custo social elevado, pois, de facto, tratam-se de milhares de funções até aqui desempenhadas por pessoas que desempenha cargos que poderão ser extintos num curto espaço de tempo. Contudo, outros novos cargos surgirão, a partir, por exemplo, de empresas de tecnologias especializadas na programação sobre a cadeia de blocos, com técnicos altamente qualificados para o efeito.

Tal como o tractor revolucionou a agricultura, a máquina a vapor foi fundamental para a revolução industrial e a internet transformou a forma como comunicamos, também a cadeia de blocos irá, certamente, alterar a forma como fazemos negócios e registamos os nosso dados. Em todos os casos, existirão sempre empregos que desaparecem e outros que se criam de raiz.

(1) por Thomas Edison
(2) por George Westinghouse e Nikola Tesla

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